quarta-feira, 13 de abril de 2016

O Coração do Baobá



No coração da África, havia uma extensa planície. E no centro dessa planície, erguia-se uma alta e frondosa árvore. Era o baobá.
Um dia, embaixo do sol escaldante do meio-dia africano, corria pela planície um coelhinho, que, exausto, suado, quando viu o baobá, correu a abrigar-se à sua sombra. E ali, protegido pela árvore, ele se sentiu tão bem, tão reconfortado, que olhando para cima não pôde deixar de dizer:
- Que sombra acolhedora e amiga você tem, baobá! Muito obrigado!
O baobá, que não costumava receber palavras de agradecimento, ficou tão reconhecido, que fez balançar os seus galhos e tremular suas folhinhas, como numa dança de alegria.
O coelho, percebendo a reação da árvore, quis aproveitar-se um pouquinho da situação e disse assim: - É, realmente sua sombra é muito boa.... Mas e esses seus frutos que eu estou vendo lá em cima? Não me parecem assim grande coisa...
O baobá, picado no seu amor próprio, caiu na armadilha. E soltou, lá de cima de seus galhos, um belo e redondo fruto, que rolou pelo capim, perto do coelhinho. Este, mais do que depressa, farejou o fruto e o devorou, pois ele era delicioso. Saciado, voltou para a sombra da árvore, agradecendo:
- Bem, sua sombra é muito boa, seu fruto também é da melhor qualidade. Mas... e o seu coração, baobá? Será ele doce como seu fruto ou duro e seco como sua casca?
O baobá, ouvindo aquilo, deixou-se invadir por uma emoção que há muito tempo não sentia. Mostrar o seu coração? Ah... Como ele queria... Mas era tão difícil... Por outro lado, o coelhinho havia se mostrado tão terno, tão amigo... E assim, hesitante, hesitando, o baobá foi lentamente abrindo o seu tronco. Foi abrindo, abrindo, até formar uma fenda, por onde o coelho pôde ver, extasiado, um tesouro de moedas, pedras e joias preciosas, um tesouro magnífico, que o baobá ofereceu a seu amigo. Maravilhado, o coelho pegou algumas joias e saiu agradecendo:
- Muito obrigado, bela árvore! Jamais vou te esquecer!
E chegando à sua casa, encontrou sua esposa, a coelha, a quem presenteou com as joias. A coelha, mais do que depressa, enfeitou-se toda com anéis, colares e braceletes e saiu para se exibir para suas amigas. A primeira que ela encontrou foi a hiena, que, assaltada pela inveja, quis logo saber onde ela havia conseguido joias tão faiscantes. A coelha lhe disse que nada sabia, mas que fosse falar com seu marido. A hiena não perdeu tempo: foi ter com o coelho, que lhe contou o que havia acontecido.
No dia seguinte, exatamente ao meio-dia, corria a hiena pela planície e repetia passo a passo tudo o que o coelho lhe havia contado. Foi deitar-se à sombra do baobá, elogiou-lhe a sombra, pediu-lhe um fruto, elogiou-lhe o fruto e finalmente pediu para ver-lhe o coração.
O baobá, a quem o coelhinho na véspera havia tornado mais confiante e mais generoso, dessa vez nem hesitou. Foi abrindo o seu tronco, foi abrindo, bem devagarinho, saboreando cada minutinho de entrega. Mas a hiena, impaciente, pulou com suas garras no tronco do baobá, gritando:
- Abra logo esse coração, eu não aguento esperar! Ande! Eu quero todo esse tesouro para mim, eu quero tudo, entendeu?
O baobá, apavorado, fechou imediatamente o seu tronco, deixando a hiena de fora a uivar desesperada, sem conseguir pegar nenhuma joia. E por mais que ela arranhasse a árvore, ela nada conseguiu.
A partir desse dia é que a hiena ganhou o costume de vasculhar as entranhas dos animais mortos, pensando encontrar ali algum tesouro. Mal sabe ela que esse tesouro só existe enquanto o coração é vivo e bate forte.

Quanto ao baobá, nunca mais ele se abriu. A ferida que ele sofreu é invisível, mas dificilmente curável. O coração dos homens se parece com o do baobá. Por que ele se abre tão medrosamente quando ele se abre? Por que às vezes ele nem se abre? De que hiena será que ele se recorda?

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Loa Nordestina


"Águardente é giribita feita de pau de capucho 
Bate comigo no chão e eu bato com ela no bucho."

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Atestado à Loucura


Na doença dos dias dada à patologia da vida
Eu me atesto à loucura

Me atesto à insanidade sóbria que os dados à arte logram
Ao ócio criativo e a predisposição para me arrebatar com frequência ao mundo da lua
Eu me atesto ao fantástico inegável da vida

Me atesto àqueles dias loucos que só
Às noites e suas alucinações gloriosas, ao ideário impelido aos boêmios
Eu me atesto às conotações das entrelinhas vitais

Me atesto às visões dadas como burlescas das mentes brilhantes
Aos contos e recontos que protagonizo
Eu me atesto ao deficit dos gênios

Me atesto às minhas próprias parábolas
Me encontro digno de acessar o templo dos versos
Eu me atesto a cantar as rimas não rimadas e a rimar os cantos não cantados

Me atesto a paragrafar as letras ainda soltas e não combinadas
A reproduzir o som ainda não harmonizado
Eu me atesto à simbiose das artimanhas literárias que não obedecem regras ortográficas

Me atesto a andar na chuva enquanto outros correm a um abrigo
A deitar ao sol enquanto todos reclamam sombra
Eu me atesto a sentir o cheiro, por as mãos, tirar os sapatos e sentir o chão

Me atesto à sinceramente sorrir de volta a uma criança que roubar meus olhos
Quero visitar Nárnia, Terabithia, o País das Maravilhas, a Terra do Nunca, os Campos Elíseos, o Céu, ou seja, lá como esse lugar verdadeiramente se chama
Eu me atesto apto a me relacionar com o etéreo

Me atesto aos beijos ensandecidos na chuva
Às manifestações dissimuladas de afeto
Eu me atesto ao amor em proporções imprudentes e desmedidas

Me atesto ao respeito pleno das idiossincrasias humanas
A perceber o absurdo de todos os dias
Eu me atesto à contemplação de tudo que me transcenda

Me atesto a ouvir melodias e reproduzi-las aos tantos
A marejar os olhos quando os sentimentos se afinarem
Eu me atesto a irmanar minha alma, corpo e espírito   

Me atesto a devagar sozinho sobre tudo
A visitar os bastidores desse espetáculo vital
Eu me atesto a conhecer o que há fora da caverna

Me atesto a poesia da vida que faz da realidade um mero palpite
A avidez infantil que brincar ainda me permite
Eu me permito à inconsequência de se expor de maneira demasiada

Me atesto a sinceridade inocente de um menino
E a selvageria estoica de um homem
Eu me atesto a paixões abruptas

Me atesto aquilo que não consigo explicar direito
Às viagens absurdadas e incompreendidas


Eu me atesto à loucura

quinta-feira, 16 de julho de 2015

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Amor IN-condicional




(...) farei o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa, quase como uma responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tendência geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o mínimo. É uma forma de paz...
Clarice Lispector 

Bloco de notas: "Quando tudo faz barulho /Mas nada me fala ao co...

Bloco de notas:

"Quando tudo faz barulho /Mas nada me fala ao co...
: "Quando tudo faz barulho / Mas nada me fala ao coração"

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Tetélestai



Francamente olhe para nós, somos só um pedaço da vida, disformes, propensos, viciados, efêmeros, um pedaço avariado de Deus. Então como aceitar tudo isso e saltar à graça, mergulhar, deixar-se permear por Caminho, Verdade e Vida, sem um subterfúgio se quer para se agarrar enquanto se cai nas mãos de Deus.

Caros impostores sejamos francos, melhor cair aqui, mais confortável, melhor esse cômodo, que cair na cruz e aceitar nossa condição denunciada no amor. Assumir Cristo esfregando suas vestes sujas nos tanques da redenção. Como olhar nos olhos daquele que rendeu seu sangue para redenção de nossos corpos, alma e espírito? Nosso orgulho consentirá? A gente olha pra dentro da gente e reluta aceitá-lo.